ATIVIDADES MUSICAIS NA ESCOLA ESPECIAL


Trabalho da Professora ” Lisbeth Soares ”
Resumo – O trabalho aqui relatado é desenvolvido na EMEBE Marly Buissa Chiedde, escola de Educação Especial do município de São Bernardo do Campo, que atende deficientes mentais entre 07 e 24 anos. Estes alunos têm aulas semanais de artes, onde vivenciam diversas atividades musicais, que envolvem desde a simples movimentação a partir de um estímulo sonoro até à realização de jogos de improvisação e criação. Cada atividade é planejada de acordo com as características das turmas, considerando suas particularidades. Os objetivos deste trabalho, baseado na linha construtivista e com fins educacionais, são:
Desenvolver a musicalidade; Ampliar o repertório, trabalhando com músicas de diferentes compositores, épocas e estilos; Proporcionar o contato com instrumentos variados; Aprimorar a atenção e a concentração. De maneira geral este trabalho musical tem apresentado bons resultados e contribuído para confirmar a importância da Educação Musical no contexto da Educação Geral.
Introdução – Quando comecei a dar aulas de artes na EMEBE Marly Buíssa Chiedde, escola de Educação Especial de São Bernardo do Campo, percebi que a expectativa de todos era a de que fossem desenvolvidas somente atividades de artes visuais. Foi fácil entender que a música não fazia parte do universo da ‘Educação Artística’.
O fato é que, nesta escola, assim como em outras, a música sempre foi (e ainda é) utilizada somente como recurso pedagógico, estando vinculada às datas comemorativas ou aos momentos da rotina, não sendo trabalhada como linguagem e área de conhecimento importante para o desenvolvimento. Segundo Esther BEYER (1993, pp. 16), “não se ensina a operar sobre os processos musicais, ou seja, a agir e a transformar sons em uma frase musical, a dar significados à música (…)”. Isto porque, para muitos professores, a Educação Musical é responsabilidade das escolas especializadas. Os Referenciais Curriculares para a Educação Infantil (BRASIL, 1998) e os Parâmetros Curriculares Nacionais (idem, 1997) estão contribuindo, junto com outros documentos, para o esclarecimento e o estudo desta questão. As aulas de artes (semanais) estão inseridas na rotina cuja carga é de cinco horas diárias de trabalho. A proposta das aulas é trabalhar com a integração das diferentes linguagens artísticas visando, entre outras coisas, proporcionar o contato com diferentes produções e desenvolver o potencial criativo. A intenção também é fazer da aula um momento prazeroso, onde os alunos tenham a possibilidade de trabalhar em grupo e respeitar as
Diferenças – Em uma escola onde muitos têm um histórico de frustrações – escolares e sociais – devido às suas dificuldades, o trabalho com artes vem sendo de fundamental importância para o seu desenvolvimento, conforme indicam alguns autores: Quanto mais o aprendiz tiver oportunidade de ressignificar o mundo por meio da especificidade da linguagem da arte, mais poder de percepção sensível,memória significativa e imaginação criadora ele terá para formar consciência de si mesmo e do mundo.(MARTINS, PICOSQUE e GUERRA, 1998, pp. 162) Entre todas as atividades desenvolvidas nas aulas de artes, serão destacadas e relatadas aquelas que têm a Educação Musical como objetivo. Vale ressaltar que, apesar de tratar de um trabalho com deficientes mentais, o enfoque é educacional e não terapêutico. Características do Trabalho Antes de iniciar o trabalho musical propriamente dito, tive contato com os alunos para conhecê-los e observar sua relação com a música. A EMEBE Marly Buíssa Chiedde têm alunos de idades, comprometimentos e condições sócio-culturais diferentes, todos com
deficiência mental. Em linhas gerais, a escola está estruturada da seguinte maneira: os alunos mais novos (entre 07 e 13 anos) estudam de manhã e os mais velhos (entre 14 e 18 anos), à tarde. Há, também, aqueles que fazem parte das Oficinas de Trabalho (maiores de 17 anos) e têm uma jornada de 40 horas semanais. Os alunos da manhã têm maiores comprometimentos e necessitam de supervisão para desempenhar as diversas atividades; os alunos da tarde têm melhor desempenho, são independentes e estão alfabetizando – se.
Apesar desta diversidade, a relação dos alunos com a música é semelhante. Notei que o contato com a música estava restrito aos meios de comunicação, o que demonstrava a necessidade de ampliar o universo musical destes alunos. A maioria deles havia tido poucas oportunidades de participar de jogos musicais, de manusear diferentes instrumentos, ou seja, de vivenciar e de fazer música. Os Referenciais Curriculares apontam a importância destas oportunidades: É muito importante brincar, dançar e cantar com as crianças, levando em conta suas necessidades de contato corporal e vínculos afetivos. Deve-se cuidar para que os jogos e brinquedos não estimulem a imitação gestual mecânica e estereotipada que, muitas vezes, se apresenta como modelo pra as crianças. (BRASIL, 1998, pp.59)
Considerando todos estes elementos, tracei os objetivos do trabalho que venho desenvolvendo até então com os alunos do período da tarde:
1) Desenvolver a musicalidade;
2) Ampliar o repertório, trabalhando com músicas de diferentes compositores, épocas e estilos;
3) Proporcionar o contato com instrumentos variados;
4) Aprimorar a atenção e a concentração.
Estes objetivos estão ligados ao objetivo geral das aulas de artes que é proporcionar ao aluno o conhecimento de diferentes materiais para o seu uso criativo nas atividades artísticas, favorecendo sua identificação como integrante de um grupo cultural.
É importante destacar, também, que mesmo sendo um trabalho fundamentalmente educacional, como já foi esclarecido, alguns elementos utilizados são semelhantes aos da Musicoterapia. Nas atividades de exploração sonora, por exemplo, os sons corporais são pesquisados, favorecendo a construção da imagem corporal, aspecto importante para estes alunos. Também são feitas pesquisas e explorações de outros ‘fenômenos acústicos’. “Esses fenômenos acústicos que são os que permitem ao ser humano a possibilidade de reconhecer e de redescobrir os fenômenos sonoros externos e recriá-los, para os transformar em linguagem musical.”(BENENZON, 1988, pág. 12)
Após estas colocações iniciais, descreverei algumas das atividades desenvolvidas.
Atividades de apreciação – Para muitos adolescentes, não só da escola especial, música ‘legal’ é aquela que toca várias vezes no rádio e cujos cantores aparecem na televisão; seguindo este pensamento, a música erudita é ‘chata’. Infelizmente, esta idéia, transmitida pela mídia cujos interesses são comerciais, esta arraigada entre os alunos. Como, então, motivá-los a participar da excursão da escola para assistir à apresentação da Orquestra da cidade? Comecei a falar sobre os diferentes instrumentos, mostrando a eles fotos, vídeos e algumas gravações. Aos poucos, fomos trabalhando com as famílias de instrumentos, aproveitando, também, os instrumentos de pequena percussão da escola para fazer as classificações: qual tem o som mais forte/fraco? Qual tem o som mais grave/agudo? Como é produzido o som neste ou naquele instrumento? Com algumas turmas, pude aprofundar estas vivências, fazendo atividades de identificação dos solos ouvidos.
Quando assistimos à Orquestra, no Teatro Elis Regina, estas informações vieram à tona e todos ficaram bastante atentos e emocionados com o que viram e ouviram. De acordo com Violeta Gainza: A participação ativa do sujeito no ato de musicalização não mobiliza apenas os aspectos mentais conscientes que conduzem a uma apreciação objetiva da música, mas também uma gama ampla e difusa de sentimentos e tendências pessoais. (GAINZA, 1988, pág. 34) De volta à escola, aproveitei a aula de artes para ouvirmos um trecho da 5ª Sinfonia de Beethoven, que havia sido apresentada pela Orquestra. Isto fez com que a audição fosse muito mais significativa, pois todos tinham a lembrança de ter ouvido a mesma música ao vivo. Retomamos também as fotos, o que contribuiu para este aprendizado. Em outras aulas, passamos a ouvir outros exemplos, não só executados por orquestras, mas, também, por outras formações. Assim, passamos a ter um momento de ouvir música na aula de artes, onde os alunos têm ficado bastante atentos e interessados. Com a realização da Copa do Mundo, aproveitei este momento para trazer música de outros países. “Um olhar para toda a produção de música do mundo revela a existência de inúmeros processos e sistemas de composição ou improvisação e todos eles têm sua importância em função das atividades na sala de aula”. (BRASIL, 1997, pp. 76).
Tivemos, também, a oportunidade de ter a visita da Banda Sinfônica na escola e comparar os instrumentos utilizados por ela e pela Orquestra. Os alunos perceberam que na Banda Sinfônica não são usados os instrumentos de cordas, mas sim os de metal, em maior quantidade que na Orquestra.
Jogos musicais – Com algumas turmas, optei por usar o papel como elemento básico de diversas atividades. Entre outras coisas, os alunos fizeram recorte e colagem, dobraduras e pinturas. Participaram também de jogos teatrais, onde os papéis serviram como figurino. Para as atividades musicais, separei pedaços de papel sulfite, dobradura, papel cartão, jornal, cartolina e papel de seda para fazer algumas explorações sonoras.
Em um primeiro momento, eles manusearam livremente os papéis, sacudindo, batendo, raspando no chão, dando ‘petelecos’, etc. Conversamos sobre as diferenças dos sons produzidos (fortes/fracos, graves/agudos) e fizemos uma classificação baseada nestas diferenças.
Aproveitamos os sons para fazer a sonorização da história “Plic, plic: um barulho da chuva” (IACCOCCA, 1988). Esta atividade foi bastante interessante e deu margem para a realização de outros jogos com estas turmas.
Usando a mesma idéia de exploração, mexemos com os instrumentos disponíveis na escola, fazendo jogos de adivinhaçã. Lancei mão da surpresa e da fantasia, tocando os instrumentos escondidos ou colocando-os em uma sacola onde não pudessem ser vistos. Com os alunos mais velhos, toquei diferentes seqüências para eles adivinharem e também solicitei que eles próprios criassem as suas para os colegas descobrirem.
Após a exploração dos instrumentos, apresentei várias gravações para que os alunos tocassem junto, fazendo arranjos simples como, por exemplo: triângulo na parte A, guizos na parte B, clavas marcando a pulsação. Em outras situações, eles tocaram os instrumentos livremente ou então respondendo aos comandos de algum líder.
Com as turmas de Habilidades Ocupacionais, compostas por adolescentes com maiores comprometimentos, os jogos musicais têm sido realizados a partir dos sons e dos movimentos do próprio corpo, encarado com um instrumento.
A ação musical implica num movimento, seja das cordas vocais e do aparelho fonador naquele que fala ou canta, seja do próprio corpo. No último caso, o corpo aparece como ‘instrumento’ produtor de som ou se ‘prolonga’ através de um instrumento musical propriamente dito.(GAINZA, 1988, pp. 29)
Na maioria das aulas, proponho alguma brincadeira cantada onde eles experimentam diferentes movimentos e sons. Fazemos também a exploração dos movimentos do corpo e do espaço da sala a partir de diferentes estímulos sonoros.
Tenho feito também, com algumas turmas, jogos de improvisação. Deixo à disposição dos alunos instrumentos variados e proponho que eles os explorem livremente.
Após a exploração, cada um mostra o que ‘descobriu’ e depois todos tocam em diferentes seqüências, fazendo ‘solos’ e ‘tuttis’. Pretendo fazer o registro sonoro destas improvisações e também o registro dos próprios alunos, caminhando para a escrita não-convencional. Como alguns alunos estão alfabetizando-se, este tipo de registro é possível.
Canto – Muitos alunos da escola têm dificuldades de fala, mas, nem por isso, o canto é deixado de lado. “Em nenhuma circunstância se pode privar o deficiente de uma experiência no real, pois todas as experiências servem para aligeirar a predisposição ao isolamento.”(FONSECA, 1995, pp. 9)
Procuro trabalhar com canções com estruturas simples, com refrões e que não sejam muito infantis e nem ‘comerciais’, já que a preocupação com a ampliação do repertório sempre está presente.
O canto é trabalhado a capela e também com acompanhamento de instrumentos de pequena percussão, de batimentos corporais, de teclado e até de play-backs, sempre levando em conta o que é adequado para cada grupo, no que diz respeito, principalmente, à tonalidade e ao andamento. Usamos canções brasileiras que (…) constituem um manancial de possibilidades para o ensino da música com música e podem fazer parte das produções musicais em sala de aula, permitindo que o aluno possa elaborar hipóteses a respeito do grau de precisão necessário para a afinação, ritmo, percepção de elementos da linguagem, simultaneidades, etc. (BRASIL, 1997, pp. 76)
Considerando que o trabalho é desenvolvido com alunos deficientes mentais e com dificuldades de fala, o mais importante nas atividades de canto, atualmente, é fazer com que eles ‘soltem a voz’ e não tenham vergonha de expô-la. Posteriormente, pretendo aprofundar estas atividades, buscando desenvolver os aspectos de afinação e ritmo.
Considerações Finais
O trabalho ora relatado continua em andamento, necessitando de uma pesquisa mais aprofundada. Para o momento, é importante ressaltar alguns aspectos:
1) Não há necessidade de elaborar um método de Educação Musical exclusivo para deficientes mentais. É importante conhecer e respeitar as diferenças, fazendo as adaptações necessárias, o que facilitará, inclusive, o processo de inclusão.
2) Sem dúvida as aulas de artes, envolvendo todas as linguagens, são importantes para o desenvolvimento cognitivo de todos os alunos, devendo ser efetivamente incluídas nos currículos.
3) Especificamente sobre a Educação Musical, é importante aprofundar os estudos, buscando envolver não só os alunos, mas, também, professores e funcionários da escola, pensando na seguinte questão: “qual é o mundo musical que a escola oferece aos alunos?”
Referências Bibliográficas
BENENZON, Rolando. Teoria da musicoterapia. São Paulo: Summus, 1988.
BEYER, Esther. A educação musical sob a perspectiva de uma construção teórica: uma análise histórica. Fundamentos da Educação Musical, vol. 1, pág. 05 – 25, ABEM/UFRGS, 1993.
BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: arte.
Brasília: MEC/SEF, 1997.
________________. Referenciais curriculares nacionais para a educação infantil. Brasília: MEC/SEF, 1998.
FONSECA, Vítor da. Educação especial: programa de estimulação precoce – uma introdução às idéias de Feuerstein. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.
GAINZA, Violeta H. Estudos de psicopedagogia musical. Trad. de Beatriz A. Cannabrava.
São Paulo: Summus, 1988.
IACCOCCA, Liliana. Plic, plic: um barulho da chuva. São Paulo: Ática, 1988.
MARTINS, Mirian C. F. D., PICOSQUE, Gisa. e GUERRA, M. Teresinha T. Didática do ensino de arte: a língua do mundo: poetizar, fruir e conhecer arte. São Paulo: FTD, 1998.

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